Aonde iremos? O que podemos fazer? A pandemia está descontrolada no país?

Casa Comum
“Meu Deus, estamos à deriva!”

Nos últimos dias nos deparamos com inúmeras expressões como estas, proferidas por amigos, família ou mesmo nas redes sociais, em função da realidade dura que se impõe. Hoje, 03 de Março de 2021, quase um ano depois dos primeiros casos de Covid 19 no Brasil, assistimos com muita dor a 1910 mortes em 24hs, segundo CONASS (Conselho Nacional de Secretários de Saúde). É a maior crise sanitária mundial da nossa época. As mortes por covid-19 caem 6% em todo o mundo e aumentam 11% no Brasil, diz OMS. E continuamos sem distanciamento social adequado, sem usar máscaras, sem vacinas em larga escala e praticamente sem governo com políticas e estratégias claras de combate em escala nacional.

Nós tínhamos tudo para sermos uma referência internacional no combate à pandemia. Havia pelo menos 3 semanas de vantagem para aprender com a experiência internacional e nos prepararmos com compra de equipamentos, reorganização de serviços, controle de fronteiras, desenho e implantação de uma base de dados inteligente, etc… A resiliência brasileira foi sistematicamente colocada à prova. Entende-se que resiliência é a capacidade de lidar construtivamente com adversidades*. Requer compreender a natureza da adversidade, adaptar-se para mitigar seus efeitos e aprender com as ações tomadas e os resultados alcançados. Desconfio seriamente que fomos reprovados, ou, como alguns gostam de falar, “fracassamos como sociedade”.

Mesmo, a despeito das novas cepas. Não pode ser considerado que há uma doença nova. A fisiopatologia é a mesma**. Pequenos e eventuais ganhos adaptativos das variantes não justificam o que vemos. Nosso comportamento nos trouxe até aqui. É espantoso ver que já temos 1 ano de experiência na internação (tratamento mais eficaz com corticóides), quase 25% do grupo mais vulnerável com a primeira dose, milhões de pessoas com imunidade pós infecção e diante de tudo isso constatamos que nesse fatídico dia 03 de março, a média móvel de óbitos bateu recorde.

Mais do que teoria, vêse na prática, em outros países, que posturas individuais e condutas cuidadosas são FUNDAMENTAIS e definitivamente ajudam. Porém não se pode imputar toda a responsabilidade aos indivíduos, a cultura ou falta de consciência de parte da população. As pandemias são gestões populacionais – isto é, gestão feita a partir de cálculos estatísticos de características, comportamentos, condutas, ocorrências. Há uma diversidade de “artilharia” que podemos fazer uso, inclusive em último caso “tiros de bazuca”, como o lockdown. O que vai dizer qual a melhor arma ou combinação é justamente o uso reto da boa ciência e condições políticas para melhor execução de políticas públicas rápidas e eficientes, considerando as dinâmicas e características próprias das diversas microrregiões de um país continental como o Brasil.

Entretanto, o que temos mais visto são buscas de soluções empíricas, tentativas de bom senso ou, até mesmo, total falta de bom senso. O que fazer ou deveria ser feito, afinal de contas, é ao menos, fazer uso de tecnologias do século XVIII, que estão disponíveis, e que sejam usadas para o que elas foram inventadas! O que dirá em buscar recursos nas novas tecnologias. E padecemos ao negligenciar todo esse arsenal.

Assim, infelizmenteo que se vê atualmente no Brasil:

  • era 100% previsto;
  • era evitável;
  • Pode piorar muito antes de melhorar.

Estamos em uma onda ou até tsunami – espero que não seja – em que a proporção de cada um dos fatores importantes de combate a pandemia, tais como: Relaxamento social; Vacinação lenta e Ocorrência de Variantes estão se combinando catastroficamente para um cenário difícil e determinando o que estamos vivendo.

Nesse exato momento que subscrevo, em 20 capitais a ocupação das UTIs é maior que 80% e segundo dados do InLoco***, praticamente todos os estados apresentam isolamento social abaixo de 40% (Figura 01), sendo que Rondônia apresenta valores em torno de 38%, (https://f1noticias.com.br/noticias/brasil/saude/2021/03/indice-de-isolamento-social-em-rondonia-e-de-apenas-38-mesmo-com-leitos-de-uti-lotados/). Vale lembrar que nos meses iniciais da pandemia conseguimos, em média, valores entre 50 a 70% de distanciamento social em todo o país.

Figura 01-Mapa do Índice de isolamento social por estado (02/03/2021). Fonte: InLoco.

É notório o cansaço da população, de toda a sociedade, especialmente dos profissionais de saúde, verdadeiros heróis quase reféns de uma realidade dura e estafante que se impõe dia a dia. Mais desanimador é perceber ainda o caos e ingerência institucional a que ainda estamos submetidos, escancarando o caos político já há muito instalado.

O QUE FAZER? PARA ONDE IREMOS?

Você, eu, nós, temos que nos proteger. É usar máscara, aquela que tiver. Se puder uma mais eficiente, melhor, senão a que tiver. Lavar as mãos e EVITAR QUALQUER TIPO DE AGLOMERAÇÃO desnecessária. Abra janelas onde estiver.

SAIBA QUE VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO.

Sim, é desanimador ver aglomerações. Festas. Muito difícil. Mas a maioria de nós pode fazer diferença. Quanto mais gente fazendo, melhor. A subida é exponencial, a queda do R (quantidade de pessoas para a qual cada indivíduo infectado, em média, repassa o vírus) pode ser também bem mais rápida. Porque o vírus vai em sequência, se ele encontra barreiras, ele é vencido.

Outro ponto, seja pessoa exigente. Não acusando, apontando dedo. Isso não costuma ser eficiente. Mas abra a janela, não saia, dê o exemplo. No trabalho, dê o exemplo, não aglomere e enfatize o uso de ambientes abertos. Sua mãe pode ficar chateada, seu chefe, seu amigo, mas é assim. Sem acusações, mas pelo bem comum.

MAS ALGUMA MEDIDA É MELHOR QUE NENHUMA? SIM

Num futuro pós pandemia, teremos que olhar para tudo o que foi feito e debater como se faz ciência. A pandemia deu voz a cientistas, e isso é maravilhoso, mas também abriu espaço para muito oportunismo e ciência mal feita. Também, mais do que nunca, precisaremos avaliar como se faz política, a gestão pública e principalmente o diálogo e comunicação efetiva entre ciência e política. Não, isso não é um problema somente do Brasil, é do mundo. Mas aqui no país demonstrou haver um poço abismal entre eles.

SIM, A PANDEMIA VAI PASSAR!

Sim, mas a pandemia só vai passar depois de termos muita, mas muita, gente vacinada. Não temos tratamento direto para o vírus. Por enquanto, vale, mais do que nunca, a máxima do início de 2020. O tratamento é não pegar, nem transmitir e vacinar.

“A única maneira de lutar com a peste é com decência.”

Albert Camus

Referências

* Ricardo Paes de Barros.    Professor no Insper e Coordenador da Cátedra Instituto Ayrton Senna.  Legado de uma pandemia (2021). 

** Paulo Lotufo. Professor Titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP. Organizador de estudos epidemiológicos como o Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil).

*** https://mapabrasileirodacovid.inloco.com.br/pt/ 

Marcelo Melo Barroso

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