Recicle-se: O VAR e a ética no futebol

Entre linhas

Era o segundo tempo, quando o pé de Nilton Santos cruzou o caminho do atacante espanhol Enrique Collar. Sorrateiro, o zagueiro canarinho adiantou o passo, como ele próprio confirmou, e o que seria um pênalti contra o selecionado brasileiro, foi, sobejamente, convertido em falta para a Espanha, fora da área, portanto. Celebrado como o verdadeiro malando tupiniquim, aquele que, com jeitinho, dá solução às mais comezinhas ou complexas situações. O jogador de futebol passa hoje, como todos os profissionais da contemporaneidade, pela implacável missão de lidar com a tecnologia e as decorrências dela pertinentes.

Desde o início da utilização de recursos desta monta para auxiliar a arbitragem dos jogos a ter menos erros, rendida pela inarredável onda digital que invadiu os campos com câmeras, drones, telas e telões, a Federação Internacional de Futebol, acenou, do fundo de mar de corrupção em que se instalou por aquelas cercanias, com o VAR, sigla em inglês para Vídeo Arbtiry Recorer, ou como o Galvão ou Luiz Roberto já cravaram, nas transmissões da tv aberta, o árbitro de vídeo.

Que há muito as câmeras da televisão começaram a desnudar o submundo antiético dos campos de futebol, isso não é segredo para ninguém, o que nos desafia a todos agora é a possibilidade de que essas imagens, analisadas durante o jogo, possam interferir, mudar ou confirmar as decisões que bandeirinhas e juízes tomam nos gramados. O gesto brejeiro de Santos, na Copa de 1962, hoje seria apenas um sinal de ingenuidade e quase mau-caratismo, de quem, diante de todos, dispôs-se a enganar o árbitro e burlar as regras em troca de um benefício e tanto para seu time. Hoje flagrado pelas lentes do VAR seria mais exemplo mau de como a ética ou falta dela dentro dos campos, antes aceita e até festejada, está de saída, não apenas para os vestiários, mas fora dos estádios.

A pecha de simulador que se abateu sobre Neymar Júnior na Copa de 2018 é uma amostra grátis do que vem por aí. Jogadas marotas e até criminosas, como agressões sem (ou com) bola, dedadas, beliscões, xingamentos, arranhões e por aí vai. Já teve jogador que puxou o pênis do adversário dentro da área para lhe tirar a concentração e evitar a cabeçada, num cruzamento de bola parada.

Vai ficar chato? Vai perder a graça do futebol? Distante da polêmica sobre como essas alterações trarão mais certeza e correção às decisões, até porque continuam sendo homens e mulheres a operar os equipamentos e interpretar o que veem. O que chamo atenção é para o fato de que essas imagens, antes apenas alvo de críticas da imprensa especializada, agora poderão render cartões, faltas, advertências, penalidades, gols validados e anulados. Se o que rolava dentro de campo era apenas bastidor para os profissionais e suas peripécias convertidas em histórias de boleiro, com a inovação do VAR, a ética entre esses profissionais deve ser, novamente, pensada.

Se o Flayr Play, as campanhas contra o racismo na Europa e por aqui do lado de cá do Oceano, já fazem parte do cotidiano da bola, essa nova maneira de arbitrar trará uma novel perspectiva ético-moral aos retângulos mágicos, onde 22 homens ou mulheres disputam a bola, o espaço e a meta, em comum e contrária. Fazer falta para chegar à bola antes do adversário, comemorar o gol claramente impedido, dizer que não viu se a bola bateu na mão, tudo isso não passará de letra morta, de um passado, embora próximo na temporalidade, cada vez mais distante do espetáculo bretão, popularizado por malandros latinos, como Don Diego e sua mano de Dios, na Copa de 1986. Aperfeiçoa-se o VAR, com o tempo, para que todos tenham mais possibilidade de crer e confiar na inovação. Aperfeiçoem-se também os profissionais, de alto nível, cujos jogos disporão dessa tecnologia, para serem mais respeitosos com os contrários, mais humanos com os colegas de profissão e menos caras de pau.

Sobrevivem os que se adaptam, já alertou Darwin. Se o que vale é a regra do jogo, e se a regra e as imagens forem claras, cada vez mais, não os jogadores, já engessados pelos calendários, compromissos financeiros e políticos dos clubes, mas todo o futebol será robotizado, sistematizado em algoritmos e fórmulas matemáticas, distanciando do circunstancial, por conta da improvável distração de uma máquina, seus zoons, repetições e frames. Perdeu a graça? Creio que não. Mas, no futuro, os jogadores conviverão com os robôs que lhes vigiam. X9 eletrônicos que dirão ao juiz e seus assistentes o que os olhos e ouvidos humanos seriam incapazes de captar num caldeirão barulhento.

Amarrar as chuteiras, erguer os meiões e a qualidade moral das disputas. O “marcou parou” dos rachões e peladas serão saudosas memórias de um tempo em que era possível ludibriar as regras e fazer injustas vitórias no esporte das multidões. Contudo, o VAR também erra, até diante da improvável contestabilidade das imagens no passo a passo da revisão. Apostas no futuro? Bandeirinhas obsoletos e os cartolas bonachões cada vez mais em descompasso com o esporte bretão.

São sombrias as paragens para o Serviço Público brasileiro. Após anos de euforia, com cursinhos preparatórios lotados e muita disputa, inclusive com ascensão de um novo tipo de estudante, o “concurseiro”, nota-se uma significativa queda de prestígio para a carreira pública. Simbólica, a data de 28 de outubro, celebrada pela parcela dos trabalhadores não celetista, cada vez mais, é esvaziada. Seja pela pauta liberal e (des) estatizante que paira no Congresso seja pelo próprio estereotipo popular encarnado no malandro boa praça, que recebe, muitas vezes mal, contudo, ou por isso, há que se descontar um tempo a mais para ser menos dedicado.

Em que pese importantes funções para o próprio funcionamento da sociedade, como as autoridades policiais, profissionais de medicina, professores, a Justiça, entre outros, a sanha por varrer tudo que pareça mordomia ou descaso das contas do erário, acabou por emplacar nos funcionários públicos a pecha incômoda de privilegiados. E tome reforma da previdência! Na cacunda dos trabalhadores públicos ainda avizinha-se o fim da estabilidade no emprego, perspectiva, que, se por um lado, têm o condão de moralizar ou impedir a permanência no emprego de pessoas que não tenham condições técnicas para tal, ao fim e ao cabo, trarão para esses trabalhadores, a dissolução da luta e redução de garantias e prerrogativas que tornaram a carreira atrativa, sem contar com ameaça à quebra da unicidade sindical.

Esse quadro, que em muito é apoiado por parcela dos próprios servidores e por outros segmentos sociais, como o empresariado e a classe política (que se derivam e retroalimentam), trará e já traz, mudanças na forma como o servidor, no seu dia ou nos demais, enxerga sua relação de trabalho: se empregado da empresa ou órgão público ou de toda a sociedade? Trabalha para si e para o sucesso de quem arrecada e lhe paga ou quem lhe paga é todo pagador de impostos, taxas e multas?

Debrucem-se sobre as perguntas os que tiverem tempo e disposição para lhe aplicar as hipóteses em busca da resposta mais justa. De cá, já o feriado acaba e não terei tempo de molhar as plantas. Não sei se a carreira de fato está sem atrativos, a ver os concursos do porvir. Não dou parabéns às crianças, no suposto dia. Não têm culpa nem mérito de o sê-lo. Também não o farei aos colegas servidores, mas pelo motivo inverso. Têm dolo, pois quiseram ser. E todo o mérito! Mas, comemorar o que?

Adriel Diniz
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