O combate ao coronavírus exige que as instituições e autoridades políticas levem a sério a ciência!

Pela política nossa de cada dia!

Escrevo este texto neste dia 28 de março, em que os dados atualizados do Ministério da Saúde nos apontam 114 mortes e 3.904 casos do coronavírus. Estou acompanhando a evolução desta pandemia em nossa terra desde o dia 23 de março. No dia 23 de março, tínhamos 34 mortes e 1.891 casos; no dia 24 de março, tínhamos 46 mortes e 2.201 casos; no dia 25 de março, tínhamos 59 mortes e 2.517 casos confirmados; no dia 26, tivemos 77 mortes e 2.915 casos confirmados; no dia 27 de março, já estávamos com 92 mortes e 3.417 casos; e, então, neste dia 28 de março, como já disse acima, chegamos às 114 mortes e aos 3.904 casos confirmados. Isso mostra que os números de infectados e, por consequência, de mortes estão subindo gradativamente: em torno de 500 infectados ao dia e, no mínimo, 15 mortes diárias. Lembrando que, até este momento, a taxa de mortalidade está em 2,8%, muito alta. Se, seguindo o argumento de nosso presidente Bolsonaro, estipularmos que somente velhos e pessoas com comorbidades poderão morrer, e se lembrarmos que temos hoje 20 milhões de idosos no Brasil, então nos fica fácil perceber que poderemos ter pelo menos 500 mil mortes desses mesmos idosos.

Entretanto, este crescimento não tem sido acompanhado, pelo menos no que se refere ao papel político-institucional de nosso presidente da República, da seriedade e do empenho necessários primeiramente no reconhecimento da gravidade da pandemia e, como consequência, tanto do enfrentamento dela quanto do necessário arranjo político que se coloca hoje, de modo urgente, como uma questão fundamental para que nosso país, mesmo passando por uma recessão, possa garantir que todos – em particular os mais necessitados – tenham um mínimo de proteção social, eles que sempre são os mais atingidos por qualquer crise social, política, econômica e, no nosso caso, sanitária.

Hoje, não falarei sobre propostas de políticas sociais e econômicas que devem ser assumidas pelo Estado brasileiro e por Jair Messias Bolsonaro – e seu atrapalhado ministro da economia, Paulo Guedes – para garantir que o país não entre no caos social e na destruição de nossa atividade econômica, embora seja preciso constar que a inação política que estamos vendo nesse âmbito seja gravíssima e até criminosa por parte de nosso executivo, que espera criar-se o caos social para obrigar aos trabalhadores a voltarem às suas atividades. Essa atitude, como disse, é criminosa, para dizer o mínimo: o governo passou a insistir em que o Brasil não pode parar, pois isso gerará caos social generalizado, e, para que esse caos efetivamente se concretize e, então, se comprove efetivamente esse “diagnóstico” propalado por Bolsonaro, nosso executivo atrasa ou se nega a realizar as medidas econômicas necessárias a garantir renda básica universal aos seus cidadãos, a evitar a quebra de empresas e desemprego em massa, inclusive a evitar a própria possibilidade de desabastecimento, que pode se tornar real em poucos dias. Se não fosse pelo nosso legislativo, tão atacado pelo nosso presidente, a situação seria muito mais grave.

O que me interessa refletir hoje consiste na reiterada e idiota recusa da abordagem científica acerca deste problema da pandemia de coronavírus. Como nós estamos percebendo ao longo destes últimos dias, Jair Messias Bolsonaro – nisso sendo secundado por Olavo de Carvalho, pelo Veio da Havan, pelo dono do Madero e até por Silas Malafaia e Regina Duarte – nega de modo enfático que a infecção pelo coronavírus seja efetivamente uma pandemia com consequências sanitárias e sociais desastrosas. Inclusive, em uma recente entrevista a José Luiz Datena, na Band, Bolsonaro negou que os mortos na Itália tenham morrido de coronavírus. Daí a consequência de que o governo tenha distribuído rapidamente a campanha “O Brasil não pode parar”, motivando, na sequência, a ameaça de greve por parte de caminhoneiros e a realização de carreatas – e não passeatas! – públicas defendendo a retomada da normalidade social e, em particular, do trabalho cotidiano.

Como disse, para nosso presidente e seu grupo político, a ciência simplesmente não conta em nada e nossos cientistas – desde médicos em geral, profissionais de saúde os mais variados, instituições acadêmicas e autoridades econômicas – são vistos como charlatães, como pessoas que estão levando à hipérbole a preocupação com o coronavírus, causando caos social e histeria coletiva, estes sim de consequências imprevisíveis. As experiências médicas e os desafios políticos que estamos vendo em outros países – pensemos na China, na Itália, na Espanha, nos EUA, na França, na Alemanha e na Inglaterra dos últimos dias – não significam nada para nosso executivo, que aponta para trivialidades como a especificidade de nosso clima, a resistência de nossos cidadãos (que podem nadar no esgoto sem contrair nenhuma doença!) e o caráter majoritariamente jovem da população como fatores justificadores de um tratamento mais laxo do coronavírus. São ideias simplórias, bobagens de um senso comum grosseiro que, de novo, não possuem respaldo científico, motivo pelo qual, inclusive, há uma disparidade muito grande entre a postura do Ministério da Saúde e mesmo dos governadores frente ao executivo federal.

A pergunta que não quer calar é, supondo que este mesmo executivo queira efetivamente justificar sua posição: dê-nos um exemplo (ou mais, se existir) de país que, por meio do confinamento vertical, conseguiu enfrentar a pandemia de coronavírus, diminuindo seja a contaminação, seja a crise econômica que se avizinha para todos os países! Obviamente, para uma mentalidade anticientífica como a do executivo federal, esse exemplo não existe. Não existe e não conta. Por isso, Bolsonaro caiu em um utilitarismo grosseiro: é melhor morrerem alguns idosos do que quebrarmos a economia, do que o desemprego em massa e a recessão econômica. Mas cadê os exemplos práticos de que, no caso dos países que enfrentam a propagação desta pandemia, é melhor salvar a economia e deixar morrer-se alguns idosos? Onde isto está acontecendo? Mais uma vez, Bolsonaro não tem nenhum exemplo, porque o que estamos vendo é exatamente a mortandade em massa de pessoas, com o colapso não apenas dos sistemas de saúde, mas também e em consequência de TODAS as atividades produtivas e do comércio em geral. Só hoje, 28 de março, tivemos 832 mortes na Espanha e 889 mortes na Itália. Como pode haver normalidade social e dinamismo econômico nesta situação? Só um idiota acredita que a Itália e a Espanha não podem parar, não obstante essa gripezinha! Na verdade, estes são exemplos de uma perda de controle do enfrentamento do coronavírus. Estes exemplos, e não a estupidez de religiosos que vivem da ignorância alheia, de empresários e tecnocratas que dependem de massa de manobra e de populacho ignaro e sem formação, é que devem orientar a atuação de nossas instituições públicas e de nossas lideranças políticas, econômicas e sanitárias. Estes fatos devem dar a diretriz do que precisamos, do que devemos fazer neste momento, e não o achismo e as fake news cotidianas que são o lugar comum da atuação de Bolsonaro.

Recentemente, projeções acerca do contexto brasileiro realizadas pelo Imperial College, de Londres, estipulam que, com isolamento social intensivo, teremos apenas 44 mil mortes; com isolamento somente de idosos e portadores de comorbidades, teremos apenas 529 mil mortes; com isolamento social leve, teremos apenas 627 mil mortes; e, sem qualquer ação de isolamento (ou seja, com o vírus circulando livremente), teremos 1,1 milhão de mortes. Estas projeções são realizadas a partir de fatos, ou seja, do que efetivamente aconteceu e está acontecendo em outras nações. Trata-se, portanto, de projeções justificadas pelas situações práticas, empíricas acontecidas, por exemplo, em China, Itália, Irã, Espanha, EUA, França, Inglaterra, Alemanha etc. Não são meros “achismos”. Ademais, temos relatórios da Organização Mundial da Saúde, muito claros acerca de como essa pandemia pode causar morticínio generalizado e, então sim, desestabilizar de modo consistente nossas sociedades e nossos regimes econômicos, começando com os sistemas de saúde, que não contam com número ilimitado de respiradores artificiais e leitos em unidades de terapia intensiva. O cidadão brasileiro precisa parar que acreditar que há uma instância de justificação superior à própria ciência, especialmente nesta questão da pandemia pelo coronavírus. Somos muito dados a fanatismos, obscurantismos e simplificações que nos impedem de ver que efetivamente uma democracia moderna precisa fundamentalmente da ciência, do conhecimento produzido pela academia, bem como da voz de nossos cientistas. Bolsonaro tem se nutrido há muito tempo do senso comum mais rasteiro, sórdido e hipócrita e, por meio dele, naufraga nas ondas da ignorância, assim como lideranças empresariais e neopentecostais, a exemplo daquelas que citei acima. Para tais lideranças, a ignorância da população é a condição sine qua non de seu sucesso, de seu enriquecimento, de sua influência social – o que justifica, aliás, a guerra contra a modernidade cultural que instauram permanentemente. Sobretudo, precisamos entender que os exemplos práticos, empíricos que temos do e sobre o coronavírus nos mostram uma pandemia altamente infecciosa que tem o poder de matar em escalas cada vez maiores. É essa a experiência que temos, são estes os fatos que temos. E não temos nenhum fato contrário, ou seja, de que ele não tem nenhum potencial infeccioso. Ademais, também precisamos compreender que não estamos em uma situação de “ou, ou”, ou a saúde, ou a economia. Isso é besteira, porque, se chegarmos à situação da Itália e da Espanha, ambas as situações se imbricarão, mas então estaremos mergulhados no caos. De mais a mais, é nessas horas que o Estado pode efetivamente colocar-se a serviço da sociedade, com políticas de redistribuição de renda, subsídios às empresas, injeção de capital na sociedade, diminuição da taxa de juros, oferta de renda básica mínima etc., que nos permitam superar esta