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No colapso, imobilizados e sem direção administrativa!

Pela política nossa de cada dia!

Em momentos de crise, a falta de líderes capazes de, desde o executivo federal, proporem e gerirem um trabalho cooperativo seja com o legislativo federal, seja com os executivos e legislativos estaduais e municipais, em torno ao combate do problema que enfrentamos todos, sem exceção, amplifica ainda mais a tragédia humana que vivemos e que tende a se agravar. É esta a nossa situação no contexto do governo de Jair Messias Bolsonaro.

Em recente auditoria do Tribunal de Contas da União, foi constatado que o Ministério da Saúde gastou, desde março, apenas 29% dos recursos da pasta destinados ao combate ao coronavírus. De um montante de 38,9 bilhões de reais disponíveis ao Ministério da Saúde, apenas 11,4 bilhões de reais haviam sido efetivamente gastos. Isso em um momento no qual os casos de contaminação e de morte chegaram a um número altíssimo, nos colocando com folga na segunda colocação mundial em termos de número de contaminações e de mortes.

O Ministério da Saúde, lembremos, é atualmente comandado pelo Gal. Pazuello, o qual, como todo bom militar que vira ministro, está se submetendo às atitudes irracionais de Bolsonaro como se fosse um capacho cego, surdo, mudo e amoral – e, ao contrário, como se o presidente estivesse no pleno uso de suas capacidades mentais e morais, o que ele certamente não está. Pazuello repete na política – e nesse cargo importantíssimo que é o de ministro da saúde – o que aprendeu a fazer na caserna, ou seja, se comportar quase como uma marionete em relação ao seu líder e, em particular, frente à tendência anticientífica, fundamentalista e egocêntrica de seu chefe. Não por acaso, portanto, neste ministério, assim como no Ministério do Meio Ambiente (Ricardo Salles), no Ministério da Justiça e da Segurança Pública (André Mendonça), no Ministério da Educação (primeiro, Abraham Weintraub e, agora, o pastor Milton Ribeiro), no Ministério das Relações Exteriores (Ernesto Araújo) e no Ministério da Mulher, da Família e Direitos Humanos (Damares Alves), temos um show de horrores que vão desde o “passar a boiada” relativamente à legislação ambiental e o “meninas de esquerda põem crucifixo na vagina e são abortistas”, passam pela constituição de uma polícia de Estado, pelo globalismo comunista-marxista e pela “doutrinação ideológica” e chegam, então, nessa tragédia que é a gestão da pandemia do coronavírus, que, por má-fé gerencial, nos levou a uma situação de praticamente noventa mil mortos e subindo.

O investimento pífio dos recursos públicos destinados à saúde – e, lembremos, os recursos não são do presidente Bolsonaro e nem de seu capacho, o Gal. Pazuello, mas do povo brasileiro e, portanto, recursos públicos – mostra o quanto nossas lideranças e seus subordinados governam para si e desde suas idiossincrasias, e não desde a constituição política e a favor da população em geral; ademais, mostra que essas lideranças governam a partir de preconceitos e de concepções pré-científicas de mundo que, ao estilo do jejum evangélico pelo Brasil, simplesmente inibem qualquer protagonismo institucional na resolução da crise, inclusive e principalmente em termos de projeto administrativo e de investimento econômico. E, repito, o que se percebe é que o presidente Bolsonaro cercou-se de um grupo de ajudantes que simplesmente repete os desejos de seu líder, em uma postura de obediência cega, instrumentalismo e amoralismo que de nenhum modo surpreenderiam os estudiosos de movimentos fascistas, totalitários e fundamentalistas. Não apenas o presidente não tem consciência do real significado da gestão pública e do cargo que ocupa, mas seus assessores fazem questão de fortalecer essa postura de dualismo-maniqueísmo político-moral assumida pelo presidente Bolsonaro e, portanto, fazem questão de manter o presidente em um rumo genocida. Nesse aspecto, a tragédia é completa e consequente a um protagonismo público em favor da pandemia e contra o povo desde nosso líder administrativo maior.

Não podemos ter dúvidas a esse respeito: o governo Bolsonaro não existe enquanto perspectiva e postura reflexivas e protagonistas. O dualismo-maniqueísmo moral do presidente e essa postura de massificação, de instrumentalismo e de bajulação que cerca seus auxiliares impedem-lhes de reconhecerem as diferenças políticas e de sensibilizarem-se com a tragédia vivida por todos: esse dualismo-maniqueísmo prendeu-lhes no âmbito da simplificação moral e social em que só existem amigos e inimigos e, portanto, em que o poder só serve para favorecer os aliados e perseguir seus inimigos. Daí que é mais fácil produzir-se um dossiê acerca de professores e policiais antifascistas, conforme denúncias recentes em relação ao Ministério da Justiça, ou falar-se em uma noção messiânica de família, conforme o faz permanentemente o presidente e a ministra Damares, do que enfrentar-se os problemas cotidianos que temos como nação – essa nação de que a extrema direita fala tanto e, como se vê, entende tão pouco, se compromete tão pouco. Ora, um governo que prepara dossiê contra professores e policiais antifascistas como se fossem criminosos só pode ser um governo perverso e imoral, o qual perdeu o rumo. Porque o problema não está com professores e policiais antifascistas que, na verdade, defendem o Estado democrático de direito; não, o problema está em outro lugar, naqueles que pregam abertamente a derrubada do Estado democrático de direito.  

Nesse sentido, a crise social, econômica e sanitária cresce e cresce por causa da – e como – crise político-gerencial. Estaremos condenados a uma situação de imobilização permanente produzida por um governo cuja moral fundamental é exatamente um dualismo-maniqueísmo que instrumentaliza a todos e coloca em xeque seja a inclusão abrangente, seja uma postura de protagonismo institucional e político em termos dessa inclusão, exigências fundamentais de uma democracia. A pandemia do coronavírus escancarou essa postura imobilizadora e regressiva de nosso presidente.     

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