Negacionismo científico é resultado da crise de nossa democracia

Pela política nossa de cada dia!


Uma democracia que não consegue justificar-se enquanto tal, em suas imensas poten-cialidades e em toda a sua pujança, uma democracia em que grande parte da população tolera a falsificação da história, a regressão cultural e a influência absurda da religião na política e no direito, uma democracia em que, inclusive, parcela nada desprezível da população prefere viver sob o jugo de governos autoritários, sendo saudosista de ditaduras militares, essa mesma democracia está marcada exatamente por uma crise aguda que implica em sua desestabilização ao longo do tempo. Ora, esta é uma das condições político-institucionais estruturantes de nos-sa vida contemporânea e foi a partir dela que a pandemia do coronavírus nos atingiu em cheio, sendo amplificada e tornando-se extremamente mortal em nosso meio.
A democracia constitui-se em uma perspectiva societal-cultural-cognitiva demarcada por três princípios estruturantes: (a) a desnaturalização, a historicização e a politização da sociedade-cultura-consciência; (b) a pluralização, a diferenciação, a heterogeneidade e a com-plexidade sociopolíticas; e (c) a centralidade da diversidade, da universalidade dos direitos humanos e do Estado democrático de direito. Estes três princípios implicam, por um lado, que uma sociedade democrática é dinamizada em termos de politização abrangente a partir de um prisma secularizado, profano, racionalizado e científico, bem como, por outro, que ela se constitua enquanto um sistema público de direito que nos permite a correlação direta de de-mocracia e direito. Dito de outro modo, a democracia é direito e só depois e como condição para tudo o mais política e moral.
Uma das consequências mais importantes dessa posição, entre tantas outras, consiste no fato de que a racionalização social, a prática política institucionalizada, a separação e a sobreposição do judiciário em relação ao sistema político e, finalmente, o discurso científico se constituam como núcleos estruturantes da autoconstrução, da autotematização e da evolução da democracia ao longo do tempo, sem qualquer possibilidade de que as instituições públicas sejam dinamizadas por outros princípios que não a racionalidade, a cientificidade e a legalidade. E aqui residiria a extrema potencialidade e a grande pujança dessa mesma demo-cracia, a saber, a capacidade de alargar seu horizonte institucional, legal e moral por meio da abertura paradigmática, da sensibilidade política e da universalização incondicional e irrestrita do reconhecimento comum, correlacionadas a uma produção de conhecimento consiste por parte das diversas ciências, cada uma ativa e protagonista em seu campo específico de traba-lho, de modo que seriam as ciências as instâncias construtivas que dariam a tônica epistêmico-institucional desde a qual o trabalho de integração social e de resolução de nossos vários pro-blemas – dos sanitários aos socioeconômicos, passando-se pelos arranjos e designs institucio-nais consequentes – seriam efetivamente enquadrados e resolvidos.
Ora, é muito interessante que estejamos vivenciando uma profunda crise e uma grave desestabilização de ambos os pólos e princípios constitutivos e dinamizadores de nossa socie-dade, de modo correlato: falta-nos moderação paradigmática, sensibilidade política e abertura institucional com as diferenças, inclusive falta-nos capacidade administrativo-gerencial-social de lidarmos com as diferenças; e falta-nos uma valorização incisiva da centralidade e do pro-tagonismo das ciências no que tange à tematização e à definição dos rumos da democracia. Por isso, o ataque direto contra minorias político-culturais é proporcional e consentâneo ao próprio negacionismo científico que estamos vivenciando contra a ciência brasileira, e isso, repito mais uma vez, em um momento mortal para nossa sociedade, para nossa humanidade, em que a pandemia do coronavírus simplesmente arrasou com o pouco de estabilidade que havia entre nós.
O negacionismo científico é resultado não só do empobrecimento cultural da sociedade brasileira, que prefere ouvir um pastor ignorante e mentiroso dizendo que a “vachina” causará câncer, AIDS e anomalias genéticas, mas também da falência do papel integrativo de nossas instituições públicas, inclusive com o fato de que muitas autoridades institucionais, seja no âmbito do sistema político, seja mesmo no âmbito do sistema jurídico, trabalham com essa perspectiva de autoritarismo político, de fundamentalismo religioso e de negacionismo científico, colocando em xeque – quando não destruindo – a própria condição e o próprio sen-tido do trabalho dessas mesmas instituições públicas. O resultado disso é o amplo descrédito do trabalho científico em nossa sociedade e, mais uma vez, a consolidação de uma postura de sabotagem seja da democracia, seja, para o nosso caso, de toda a centralidade e de todo o pro-tagonismo científico. Por isso, não é mero acidente que a pandemia do coronavírus tenha as-sumido entre nós esse sentido tão mortal: o descrédito e o pouco incentivo públicos conferidos à ciência, a inexistência de um plano público de imunização em massa e, finalmente, esse ne-gacionismo estapafúrdio, uma vez consolidados desde longa data, simplesmente prepararam o terreno para a emergência de uma crise sanitária e social que mais dia, menos dia apareceria entre nós. O covid-19 surgiu e nossos déficits consolidados o potencializaram. Nós apenas ha-víamos nos livrado de crises maiores, em nível sanitário e social, porque, de fato, elas não havi-am emergido entre nós; com o covid-19, nós somos afetados direta e fortemente por algo de que não estávamos preparados, por algo de que conscientemente não estávamos preparados. E por “não estar preparados” quero significar a regressão em termos de mentalidade cultural, de postura institucional e de logística administrativo-gerencial. Esse é o tamanho de nossa crise democrática a ser resolvido, a qual se torna cada vez mais grave.

Leno Francisco Danner

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