Tão perto e tão longe: as disputas políticas em torno à vacinação contra o coronavírus

Pela política nossa de cada dia!

A crise de saúde pública pela qual estamos passando tem sido agravada e, em muitos momentos, obnubilada pela crise política vivida no Brasil hodierno, a qual encontra o seu ponto de culminância na tônica ao mesmo tempo negacionista, deliberadamente disruptiva e propositalmente sabotadora do governo de Jair Messias Bolsonaro não só relativamente ao trabalho ingente em torno à pandemia do coronavírus, mas também no que diz respeito a uma política de desenvolvimento e de integração nacionais de modo mais amplo. Dito de outro modo: chegamos a esse caos de mortes em aumento e de travamento político em torno ao enfrentamento do problema e à atuação efetivamente comprometida de nossas administrações públicas por causa do governo federal.

Um dos efeitos mais nefastos desse conflito político relativamente à pandemia do coronavírus foi exatamente a ideologização da doença. Chegamos ao cúmulo de que líderes políticos tenham primazia discursiva e normativa em torno a se o coronavírus é ou não é doença, colocando completamente de lado e invisibilizando e imobilizando o protagonismo de nossas instituições científicas e de nossos profissionais da saúde! Não, senhoras e senhores, não é algo surreal; é o caminho tomado pela regressão político-moral que, hoje, sob o governo do presidente Jair Messias Bolsonaro e em termos desse modelo normativo anti-moderno chamado bolsonarismo, tomou conta a sociedade brasileira! E, se não bastasse isso, estamos submetidos, de modo consentâneo, à tresloucada perspectiva de que esses mesmos líderes políticos definam para nós a intensidade desta doença – para aqueles que efetivamente a consideram doença –, se é uma gripezinha ou algo muito mais grave e, em muitos casos, mortal, e o tipo de tratamento a ser dado por ela: o discurso em torno à cloroquina ou à hidroxicloroquina, o isolamento horizontal ou o isolamento vertical, o ser macho ou ser maricas no enfrentamento dela etc.

Essa ideologização da doença, ademais, leva não só à invisibilização da ciência, mas também ao seu descrédito. Já não temos mais certeza de se a ciência é, de fato, só ciência, isto é, postura técnica, imparcial, impessoal e neutra, focada apenas no estudo empírico e na avaliação qualitativa dos dados, de modo a se produzir conhecimento objetivo vinculante, ou se essa mesma ciência é, na verdade, política e, nesse caso, personalismo político deste ou daquele líder. A isto contribuiu a militarização do ministério da saúde e da agência de vigilância sanitária, principalmente porque militares (me refiro às forças armadas) têm duas características muito nefastas: sabujice e pouca reflexividade, a partir da ideia de uma obediência cega ao líder; e pouca capacidade de legalidade, seja no que diz respeito a agir nos bastidores e esconder do público a verdade, seja, finalmente, em termos de utilização do aparato público de investigação sob a forma de uma autêntica polícia de Estado. Não se pode esperar daqui nada mais do que a tragédia produzida e conduzida institucionalmente.

Finalmente, não bastasse tudo isso, temos mais um ingrediente nefasto, o qual diz respeito ao plano administrativo de vacinação em massa e, obviamente, para isso, de preparação e de organização logística para tal. Até agora não vimos isso e, com exceção do governo de São Paulo e de alguns estados (como o Paraná, o Maranhão, a Bahia e o Ceará) que estão em contato com laboratórios produtores de vacinas (Coronavac e Sputnik V), o governo federal por enquanto está só no discurso. Agora, a pergunta que não quer calar: o Brasil possui hoje 210 milhões de pessoas. Como um procedimento de vacinação em massa pode dar certo sem esse trabalho amplo e intenso de organização da infraestrutura material capaz de dar conta desse desafio? Importante lembrar que alguns laboratórios produtores de vacinas (Pfizer/BioNTech e Oxford/Astrazeneca) praticamente comprometeram toda a produção da vacina do próximo ano (Só os EUA, sob a batuta de Donald Trump, já compraram um bilhão de doses da Pfizer/BioNTech), vendendo-a para países específicos. Ademais, é importante lembrar que Pfizer/BioNTech e Oxford/Astrazeneca não vão compartilhar tecnologia com os países compradores, centralizando nos seus países-base a produção da vacina e sua distribuição. Só a China e a Rússia se comprometeram a efetivamente liberar a tecnologia de produção das vacinas – e são exatamente as duas vacinas que o governo federal se recusa terminantemente a comprar, novamente por questões ideológicas (não vou nem comentar a estapafúrdia ideia de não obrigatoriedade da vacinação em massa, porque este é outro crime cometido pelo governo federal).

Analistas estão comentando que o trabalho propositivo do governador de São Paulo, João Dória, em torno à disponibilização da Coronavac já a partir de janeiro para a população de São Paulo iniciou a corrida política para saber-se quem de fato será o primeiro a iniciar a vacinação contra o coronavírus, se João Dória ou Jair Messias Bolsonaro. Mais uma vez a psicopatia grave do presidente aparece nesse momento: do negacionista e sabotador costumaz, dosado de cientista do fim do mundo, vemos assomar agora a do estadista que vencerá o coronavírus! Do presidente que recusou qualquer protagonismo como estadista neste momento terrível e que, sempre que pôde, sabotou o trabalho público de combate ao coronavírus, vemos agora o eleitoreiro tosco que, somado à insensibilidade moral, tenta ganhar crédito político a algo que ele não só negou, como também pungenciou e amplificou em sua gravidade. 

Como disse, essa ideologização da ciência e essa politização da doença representam um momento regressivo terrível para nossa sociedade, que demarca um processo de empobrecimento cultural, de desintegração social, de acirramento dos conflitos políticos e de desestabilização das instituições públicas que não vivíamos há muito tempo. Quis o tempo histórico-político que vivemos que tenhamos de enfrentar uma pandemia mortal – e que afeta toda a nossa organização socioeconômica – sem integração, compromisso e espírito coletivos, ademais de governados por incompetentes, fundamentalistas, autoritários e psicopatas.       

Leno Francisco Danner

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