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Sem racionalidade política não controlaremos a pandemia do coronavírus!

Pela política nossa de cada dia!

É interessante que até mesmo uma pandemia é, no fim das contas, um problema político, muito mais do que um problema sanitário. Certamente a infecção viral, que afeta nossa fisiologia e, depois, a organização socioeconômica, está lá ativa e pulsante, sendo transmitida de um para outro, prejudicando nossa saúde e causando milhões de mortes. Mas é por causa da plataforma político-institucional que temos que ela pode ser impulsionada ao infinito e desestabilizar de vez a sociedade em que vivemos. Com a pandemia do coronavírus isso não é diferente – e a situação político-institucional brasileira é o exemplo drástico de que a ausência ou a negação da racionalidade política se torna fatal para a propagação descontrolada e incontrolável do coronavírus.

De fato, a falta de planejamento institucional, a sabotagem e o mau exemplo políticos, a omissão de nossos gestores e, finalmente, o negacionismo científico de nossas autoridades políticas estão arrasando qualquer possibilidade de controle mínimo da doença. Nossos profissionais de saúde e cientistas poderão dar todo o seu sangue e nada mudará, em uma situação na qual politicamente se estimula a violação e o desrespeito das regras sanitárias em termos de distanciamento e profilaxia básicos, em que se desvaloriza e deslegitima a ciência e em que as instituições não só não trabalham em compasso, como também protelam medidas administrativas básicas como, por exemplo, a distribuição imediata do auxílio emergencial.

Já falei muito da sabotagem, do mau exemplo e do negacionismo assumido pelo governo federal e, por isso mesmo, sobre essa questão direi apenas um ponto importante: a sabotagem, o negacionismo e a omissão continuam a pleno vapor, como se a infecção viral por COVID-19 não fosse nada – a “gripezinha” de antes continua sendo o argumento básico do bolsonarismo e certamente não vai mudar, influenciando seus correligionários na sociedade civil a fazer o mesmo, a reproduzir essa estupidez sem tamanho, que, na verdade, é mortal.

O que me interessa, de todo modo, para o restante desse texto, é exatamente a questão do planejamento institucional em termos de políticas públicas destinadas a minimizar, aqui e agora, para já, a crise socioeconômica que grassa com a interrupção das atividades não-essenciais. Note-se, primeiramente, que o argumento do “seja homem, não seja um maricas” já não vale mais, porque, além de estúpido, é no mínimo imoral e irracional diante do potencial de contaminação, de superlotação hospitalar e de morte gerado pela liberação geral das atividades econômicas e do fluxo de pessoas. Só o aventar dessa possibilidade já deveria ser um crime administrativo, punido pelo menos com o impeachment.

Resta-nos, para sairmos da crise, (a) a continuidade do isolamento social e dos cuidados profiláticos, consentâneos à intensidade da propagação da pandemia; (b) a vacinação geral e em massa da população, a única alternativa garantidora de imunização de rebanho; (c) a oferta de auxílio emergencial às pessoas de baixa renda e de programas de estímulo econômico à classe empresarial; e (d) o planejamento de longo prazo, já que precisaremos de muitos anos, talvez até de décadas, para erradicarmos definitivamente o coronavírus do mapa de doenças presentes em nosso dia a dia.

Note-se que, como disse acima, essas medidas institucionais são para hoje, para agora, e não podem ser atrasadas indefinidamente. Note-se, ademais, que a crítica de Jair Messias Bolsonaro e de Paulo Guedes ao congresso, ou seja, de que ele está focado no presente e desconsidera as consequências futuras do endividamento do Estado, simplesmente não procede: não haverá futuro com a liberação geral das atividades socioeconômicas e com a omissão e inação do governo federal. Como nos mostram os exemplos do Amazonas e inclusive de Rondônia, o potencial infeccioso e mortal do coronavírus explode em uma situação de abandono do isolamento social. Não haverá futuro em um duplo sentido: os mortos estarão mortos e ponto final, sem redenção, sem possibilidade de volta atrás; e a contaminação em massa, além de desestruturar os serviços de saúde e de aumentar o número de mortes (lembremos do Amazonas: as pessoas morrerão por falta de oxigênio hospitalar), terá como efeito a derrocada das atividades econômicas, porque o grosso da população fugirá de qualquer contato público mais amplo.

É preciso racionalidade política por parte de nossas instituições públicas, de nossos gestores políticos. E nós não podemos tolerar gestores idiotas e irresponsáveis: abrir mão das medidas de isolamento, assumir uma postura de negacionismo científico barato e permanecer na omissão e na sabotagem são posturas que devem levar a uma contraposição pungente por parte da sociedade civil e a procedimentos de responsabilização criminal e de improbidade por parte dos órgãos públicos de controle.

A própria classe empresarial, no mesmo sentido, precisa parar de comprar esse discurso tolo do negacionismo científico e do liberou geral; precisa entender que somente a vacinação em massa eliminará o problema do coronavírus e permitirá o retorno a uma normalidade socioeconômica mínima. Precisa entender essa situação e exigir responsabilidade administrativa por parte de nossos governos. Como expressei no título deste artigo, sem racionalidade política, a pandemia se agravará descontrolada e cada vez mais destrutiva e mortal. Daí a necessidade – e era isso que queria significar com o termo racionalidade política – de um planejamento institucional sério, comprometido com a ciência, direcionado à oferta de incentivos econômicos aos trabalhadores e à classe empresarial, orientado à vacinação em massa da população e precavido com todo o trabalho ainda por fazer ao longo dos próximos anos em termos de erradicação desse mesmo coronavírus (uma parte desse trabalho consistirá em efetivar a vacinação periódica da população, permanentemente).

Leno Francisco Danner

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